O reformismo serve à reação

No capitalismo só existem duas posições possíveis: ou se está do lado do capital ou do lado do trabalho. Esta afirmação, que surge das determinações mais essenciais do modo de produção capitalista e conduz a dois projetos antagônicos de sociedade, deveria ser de entendimento comum entre todos aqueles que tomam partido pelo trabalho. No entanto, nos estratos médios que se espremem entre a burguesia e o proletariado, ainda brota como bolor a noção de que seria possível uma aliança estratégica entre as duas classes.

Seja por ingenuidade ou puro oportunismo, essa noção tenta sustentar a validade de um projeto alternativo que articularia a acumulação burguesa à luta dos trabalhadores, conduzindo pouco a pouco à superação do capitalismo. “Reforma e revolução”, clamam os partidários da via conciliadora, como se essa palavra de ordem fosse capaz de transmutar as condições de nossa existência e fazer surgir magicamente uma terceira posição na luta de classes. Um lema à primeira vista inofensivo – afinal, quem seria contra melhorias, mesmo que parciais, na condição de vida dos trabalhadores?! – traz consigo um componente extremamente danoso quando passa a orientar a ação política.

Longe de ser uma posição em prol do trabalho, o reformismo enquanto projeto não passa de uma romantização “à esquerda” da função social dos estratos médios: como classes intermediárias, cabe a eles o papel de mediadores entre burguesia e proletariado. Quando defendem o “avanço” do trabalho dentro dos limites do capital, os estratos médios não estão fazendo nada além de cumprir sua parte na reprodução da sociabilidade burguesa, criando as mediações necessárias para que o projeto do capital seja recebido com menos resistência em setores do proletariado, e assegurando, assim, a sua própria reprodução enquanto classe intermediária.

Diferente do que pregam seus defensores, portanto, o que o reformismo faz – e que tem feito desde que entrou na cena política – não é garantir um acúmulo de melhores condições de luta para o proletariado realizar a revolução, mas sim perpetuar o estado atual das coisas, dissimulando a posição do capital nas fileiras do trabalho e comprando tempo para que a burguesia organize a reação. Retirado o fino verniz humanista que reveste essa falsa posição, aqueles que a sustentam são, ao fim e ao cabo, defensores do capital.

Um breve estudo da Revolução Russa já seria suficiente para escancarar este fato em toda sua dramaticidade histórica. Entre fevereiro e outubro de 1917, sucederam uma série de tentativas frustradas de conciliação entre a burguesia russa e os sovietes, orquestradas pelo Governo Provisório e suas coalizões. Tido até então como o legítimo governo da revolução de fevereiro, a administração “de esquerda”, formada pelos estratos médios, se agarrou ao projeto reformista até o seu naufrágio, quase descambando para uma ditadura militar. Não fosse a atuação dos bolcheviques e dos anarquistas combatendo e denunciando junto às massas trabalhadoras, sob duras penas, a incompatibilidade entre a posição burguesa – adotada por toda a ala conciliadora – e a posição proletária, o destino da Rússia de 1917 teria sido muito diferente.

Os revolucionários de então tomaram consciência que a contradição essencial entre as classes possuidoras e as classes despossuídas é impossível de ser resolvida no âmbito da sociabilidade burguesa; não havia espaço para reforma, apenas para revolução. E essa consciência não nasceu da impaciência ou intransigência de uma vanguarda diminuta, mas sim das demandas das massas de operários e camponeses, que, como Lenin notou, estavam muito mais à esquerda que os próprios revolucionários. Aquela experiência tornou claro que a via conciliadora não é a via do trabalho. O reformismo não corresponde à posição dos trabalhadores, mas apenas à posição desesperada das classes intermediárias; que, por sua vez, reflete de modo mais ou menos encoberta a posição do capital.

Ainda na experiência russa, a impossibilidade do reformismo se faria conhecida novamente, de modo muito mais trágico, no próprio desmoronamento da União Soviética. Diante da impossibilidade histórica de transicionar para o comunismo, devida, entre outros importantes fatores, ao capital ser capaz de transferir suas contradições essenciais do centro para a periferia e se reconfigurar em uma nova forma, muito mais destrutiva, a república dos sovietes se viu isolada e forçada a negociar com as potências capitalistas em troca de sua sobrevida. Este processo fortaleceu a casta burocrática que já vinha se encastelando nos escombros da revolução de outubro e que acreditava ser capaz de controlar o capital não através do mercado, como nas nações liberais, mas através de seu Estado Socialista – o que se provou um grande erro, com consequências desastrosas para o trabalho e o movimento revolucionário a nível mundial.

O monolítico Estado soviético foi duramente frustrado, golpeado e derrotado, provando o que os revolucionários de outrora já haviam suspeitado: o capital é incontrolável. Não existe Estado nem política capazes de conter o dano que é criado no nível mais básico da produção. Ou se destroem as bases que dão origem ao capital e se constrói uma sociedade sem classes, erguida sobre o trabalho livre e associado entre todos os trabalhadores do mundo, ou ele continuará avançando sobre o trabalho, dominando-o e destruindo qualquer vitória conquistada.

O mesmo fenômeno, com particularidades diferentes, pode ser observado na China. Tal qual os burocratas soviéticos do século passado, os dirigentes chineses de hoje têm se esforçado por mostrar ao mundo a plena capacidade competitiva de seu “socialismo”. O título de segunda potência mundial que ostentam é celebrado na maioria dos círculos de esquerda, mas só é possível às custas da hiperexploração da força de trabalho chinesa – garantida por uma repressão e vigilância estatal violentas –, combinada à penetração do capital chinês em outros mercados, no bom e velho estilo imperialista. No fim, o ponto que a casta dirigente da China quer provar é que o seu modelo de gestão do capital através do Estado seria muito mais eficaz que o modelo liberal; uma ilusão que se torna mais difícil de sustentar a cada dia, mas que ainda incendeia corações em sua defesa.

A noção da incontrolabilidade do capital parece ter adormecido na consciência revolucionária. Ignorando ou desconhecendo as lições da história, muitos ainda insistem na possibilidade do controle “social” sobre o capital. Seja na forma clássica do reformismo, montando um governo de coalização “à esquerda” que participe do circo parlamentar, como temos presenciado nas últimas décadas com PT, PSOL e todos os outros partidos da ordem; seja na forma de um Estado socialista, entre aqueles que propõe uma via nacional nos moldes soviéticos ou chineses, vide os partidos “revolucionários”.

O que esses projetos delirantes fazem, como já exposto, a despeito do que acreditam, é apenas enfraquecer a posição do trabalho e fortalecer a posição do capital. Ao esconderem a bandeira da revolução sob o manto da reforma ou a pintarem com as cores do nacionalismo, esses projetos confundem seriamente os trabalhadores, alienando-os de sua única posição possível, impedindo-os de tomar consciência de sua própria força, e jogando-os no colo da burguesia e de seus partidários cada vez mais reacionários. O que surge daí é a perpetuação do domínio do capital sobre o trabalho, que não tarda a destruir toda a vida na Terra.

Se nos prestamos ao serviço de atuar na luta de classes em favor do trabalho, temos que defender a posição do trabalho: a revolução social. Temos que rechaçar a posição burguesa e a falsa posição reformista das classes intermediárias. Temos que colocar o fim da sociedade de classes na ordem do dia para que essa noção se fortifique na consciência dos trabalhadores. Apenas assim venceremos a reação que se espalha por todo canto do mundo. Contra o projeto burguês, o projeto proletário. Contra o reformismo e a perpetuação da sociabilidade burguesa, a revolução mundial. Contra o futuro catastrófico do capital, um futuro livre e comum!

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