
A configuração do mundo fundada no pós guerra enfrenta sérios problemas. Para acompanhar o ritmo alucinado do capital, os grandes impérios têm se prestado a malabarismos cada vez mais arriscados, testando os limites de suas relações e se aproximando de uma dura constatação: será necessária uma reorganização do mundo. Em termos capitalistas, isso significa guerra. Não existe outra saída para a manutenção deste modo de produção. Quer queiram, quer não, as burguesias nacionais serão obrigadas a disputar mercados e territórios utilizando todo seu arsenal disponível, do comercial ao militar. Os impérios mais poderosos devorarão os impérios e as nações menores e uma outra organização do mundo, muito mais miserável, há de nascer dessa destruição. Para o capital, business as usual.
O temor do que está por vir já assombra a Europa. Se agarrando às fibras de uma mortalha que apodrece com incrível rapidez, as nações europeias reunidas sob o guarda-chuva da OTAN relutam encarar o cadáver do mundo que pariram em meados do século passado. O saudosismo de seus dirigentes, que insistem na validade dos antigos tratados, soa mais como um lamurio velado daqueles que já vislumbram sua derrota na luta futura. Não sendo mais que a sombra dos impérios de outrora, Inglaterra, França e Alemanha se encontram espremidas em uma disputa entre gigantes: a leste, flanqueadas pela expansão territorial do imperialismo russo e pela expansão comercial do imperialismo chinês; a oeste, confusas frente os passos erráticos do imperialismo estadunidense, seu último bastião de defesa contra as ameaças da Ásia.
Com poucas cartas à mão, não resta muito ao bloco europeu senão suplicar amargamente ao grande general da OTAN que interceda em seu favor. O problema é que os Estados Unidos, sob o governo de Donald Trump, têm plena noção que o velho mundo se encontra em desvantagem. Com sua política de “América primeiro”, Trump tem analisado como um ávido credor o que está disposto a oferecer a seus antigos parceiros, deixando claro que a proteção não sairá barata: em contrapartida, sinalizou, devem ceder a Groenlândia.
A demanda absurda do dirigente laranja se somou a uma série de movimentos nebulosos na região. A maneira como os EUA têm lidado com a invasão da Ucrânia já havia enfraquecido a confiança das nações europeias, que esperavam do governo Trump uma solução rápida do conflito e uma reprimenda exemplar à Rússia. As taxas impostas pelos EUA sobre exportações e importações também estremeceram essa relação. Agora, a ameaça de anexação da Groenlândia acende o alerta de que seu protetor pode se tornar, num piscar de olhos, seu algoz. No entanto, não há outra saída para a Europa. Por mais que os dirigentes europeus cozinhem a disputa em fogo brando, impondo tarifas retaliatórias e ameaçando dissolverem a OTAN caso Trump siga com seu plano de “compra” da Groenlândia, é bem provável que cedam por completo às demandas dos EUA quando as botas da Rússia pisarem em suas fronteiras ou quando as mercadorias chinesas se empilharem nas prateleiras de Londres, Paris e Berlim1.
Mas não é só o velho mundo que padece.
Por mais que mantenham a pose de cowboy, os Estados Unidos enfrentam uma situação complicada dentro de casa. Na tentativa de superar a crise do capital e fazer a América grande de novo – pilhando o máximo que podem dos trabalhadores –, o governo Trump abriu mão do decoro e decidiu adotar uma posição de embate com os poderes estabelecidos do lado de cá do Atlântico, deixando claro que está disposto a redesenhar todo o continente.
Os primeiros passos já foram dados com a invasão da Venezuela, que, sozinha, precisa de uma nota dedicada. As promessas de conversão do Canadá no 51o Estado também são ventiladas em toda oportunidade de Trump. Mas mais truculenta, talvez, que a política expansionista adotada pelos EUA, tem sido a sua política de repressão interna.
A cruzada aberta contra os imigrantes – o que, na sociedade estadunidense, significa um avanço sobre a grande massa proletária2 – tem prendido, deportado, torturado e assassinado trabalhadores sem qualquer cerimônia, com pouquíssima resistência das instituições estadunidenses. O próprio partido Democrata, suposto opositor de Trump, se limita a observar os acontecimentos a distância, medindo a temperatura das fábricas e das ruas, mantendo o silêncio na maior parte do tempo e lançando reprimendas protocolares quando essas cabem.
Por mais que Democratas e Republicanos representem historicamente frações diferentes do capital estadunidense, suas divergências políticas e ideológicas se tornam trivialidades frente a crise brutal do capital. Como gestores da barbárie, os Democratas sabem tão bem quanto os Republicanos que a onda de terror despejada pelo governo Trump cumpre uma função pedagógica na luta de classes, sendo parte fundamental do plano do rei louco de repatriar a industria dos EUA.
No caso de Trump levar seu projeto de renascimento da manufatura estadunidense a cabo – o que, suspeitamos, nem a sua base acredite ser possível – o peso da repressão já estaria forjando uma massa operária que sabe e aceita, a duras penas, o seu lugar. No calculo do governo, seria uma questão de tempo até o capital migrar da China para os EUA, atraído pelo barateamento da força de trabalho. Se, no entanto, os EUA despertarem do seu sonho industrial e resolverem seguir outro caminho – provavelmente, o único caminho aberto pelo capital nessa quadra histórica, o da guerra –, os trabalhadores que sobreviverem às cruzadas e aos campos de concentração ianques poderão ser reaproveitados no front, poupando em alguma medida as classes mais abastadas dos Estados Unidos dos horrores da guerra.
No fim, é uma situação de ganha-ganha para a burguesia estadunidense, seja ela Democrata ou Republicana. Trump, neste caso, não faz nada além de encenar o “policial mau” no espetáculo sanguinolento, enquanto aos Democratas cabe o papel do “policial bom”, já que a máscara democrática do Estado precisa ser sustentada em alguma medida para gerenciar a resposta dos trabalhadores a toda essa violência; um rompimento abrupto do proletariado com o ordenamento político-burocrático não favorece em nada o capital.
Lembremos de outro caso recente nos EUA que ilustra este jogo interno: o assassinato do influenciador de direita Charlie Kirk. Antes mesmo do suspeito ser revelado, os principais canais estadunidenses utilizavam o caso como munição na cruzada identitária que movimenta o país. Muito se especulou sobre o assassino: seria imigrante, muçulmano, negro, gay, transsexual? Qual minoria seria capaz de tal ato?! Depois do suspeito ser identificado como um jovem natural dos EUA, branco, nascido e criado em uma família conservadora, a caçada identitária teve de ser revista. Os jornais e as redes colocaram, então, a seguinte questão: o assassino seria ou não “de esquerda”?
Os Democratas lançaram um sonoro não! à pergunta, tentando acenar para aqueles que tem exigido uma posição mais “radical” do partido caduco. Não!, pois a “esquerda democrata” jamais se imiscuiria no caminho da violência. Segundo o partido, a história recente dos Estados Unidos provaria, inclusive, que a violência é uma exclusividade da “direita republicana”. Com todo o cinismo cultivado ao longo de séculos na tradição liberal, os Democratas juraram que jamais se associariam ou defenderiam um ato de violência política. Sua atuação se daria sempre nos marcos da constituição, respeitando e fazendo valer a liberdade e as leis que a resguardam.
Sem a mínima intenção de sustentar o decoro dos Democratas, Trump e sua turma demandaram a cabeça dos “esquerdistas”. Em resposta ao assassinato do influenciador, o presidente disse que seu governo tomaria todas as medidas necessárias para combater o “radicalismo de esquerda”; a primeira delas, em setembro de 2025, foi a classificação do termo Antifa – lá, considerado ridiculamente um movimento – como uma organização terrorista que visa “explicitamente a queda do governo dos Estados Unidos, de suas autoridades policiais e de seu sistema de leis3”. A partir de então, qualquer indivíduo que esteja de posse de material relacionado à “organização” pode responder por terrorismo doméstico.
A execução de Kirk, que, tudo indica, não foi levada a cabo por um “terrorista de esquerda”, mas sim por um jovem vindo do mesmo berço conservador que o influenciador, tornou-se apenas mais um episódio na esquizofrenia política dos EUA. A resposta ligeira e o discurso das partes que a condenaram, contudo, exprimem uma tendência mais ampla de mobilização das forças repressivas nas nações centrais, que não podem sonhar com uma desestabilização política interna enquanto planejam seus próximos passos na disputa imperialista.
Numa tentativa desenfreada de coibir a revolta popular, a repressão no centro dos impérios tem caído com força sobre toda e qualquer movimentação que perturbe a ordem. Nem mesmo aqueles agrupamentos que carecem de qualquer programa revolucionário estão imunes.
Na Europa, o recrudescimento da repressão já vinha se expressando nos últimos anos pelo aumento do encarceramento e das penas para os ativistas contra a catástrofe climática4. No fim do ano passado, o foco da polícia se tornou o movimento contra o genocídio palestino, chegando ao ponto da Inglaterra classificar como organização terrorista a Ação Palestina, um agrupamento que se destacou pelas denúncias e tentativas de sabotagem de instalações ligadas à Israel no Reino Unido5. A moral nesses casos é clara: nas nações liberais, aqueles que se mobilizam “à esquerda” – tendo consciência do pouco que à esquerda pode significar no centro dos impérios – deveriam se ater ao respeito das leis. Incitar atos que rompam com a legalidade, atentando contra a propriedade privada, a ordem pública ou o Estado está fora de questão. O lugar para demandas e protestos é o parlamento, não as ruas ou fábricas.
Tamanha preocupação em combater movimentos que não partem diretamente do trabalho e não possuem uma perspectiva revolucionária coerente serve, ao nosso ver, duas funções. Primeiro, a função estritamente repressiva de impedir que tais movimentos ganhem momento e se aproximem de setores mais explosivos do proletariado, amadurecendo e se transformando em algo que venha a ameaçar, de fato, o capital. Segundo, a função de proteger o próprio aparato político-burocrático do capital, reconduzindo as lutas “espontâneas” à esfera institucional e convencendo a população de que o Estado é o legítimo portador da lei e da espada.
Num momento tão delicado em que os impérios se preparam para ofertar os corpos mutilados de trabalhadores no altar da guerra, as burguesias não podem se dar ao luxo de uma casa desorganizada. O capital necessita de políticas nacionais que representem com maior fidelidade suas demandas atuais: destruir a natureza e a humanidade em intensidade recorde para manter por mais um século, quem sabe, sua reprodução. As mutações que vemos no centro dos impérios, que abandonam sem pestanejar os ideais de igualdade e liberdade e se lançam na repressão de sua própria população, não são um ponto fora da curva, fruto da vontade de um governante específico, mas a configuração imposta pelo nosso tempo. O Estado irá se adaptar às demandas do capital em crise, garantindo sua reprodução mesmo nas condições mais extremas. Quanto a isso, não tenhamos dúvida. Esta é sua razão de ser.
Mesmo nações como a China, que tem sua “sensatez” celebrada em alguns círculos de esquerda, servindo de vitrine para um suposto “socialismo do século XXI”, sofre dos mesmo males. O “sucesso” do modelo chinês só é possível graças ao aparato repressivo do Estado, que existe para garantir a manutenção do trabalho alienado e a produção desenfreada de mercadorias. Que as relações de produção no império vermelho se deem sob uma forma atípica, com o Estado participando enquanto “ente racionalizador” da produção ao invés da “anarquia produtiva” do capitalismo típico, não muda o fato de que o operário chinês, tal qual um operário em qualquer outro lugar do mundo, tem sua força de trabalho medida, precificada e explorada de acordo com critérios externos. Transformado em capital, o produto do seu trabalho é expropriado, acumulado e comercializado no mercado global sem qualquer cerimônia, competindo com os demais capitais e reforçando a posição da China como sustentáculo na cadeia do imperialismo.
Frente os outros impérios, a China se apresenta como mais um participante disposto a entrar na luta encarniçada, sacrificando seus trabalhadores para conseguir uma parte maior do globo, seja na forma de novos territórios, seja na forma de novos mercados. Seu último ensaio militar, transmitido e exaltado mundo afora, não deixa dúvidas.
Para não cairmos no jogo do capital, devemos ter a clareza de que os Estados nacionais não são entes apolíticos que podem ser moldados ou conduzidos de acordo com os interesses dos trabalhadores. Eles são e tem sido, em sua origem e desenvolvimento, sob as mais diversas condições, a forma política do capital. Sua razão de ser está assentada sobre a necessidade vital de regulação das relações de produção e propriedade a nível nacional e internacional, garantindo os ajustes necessários à reprodução ampliada do capital.
As transformações pelas quais os Estados passaram no último século – de sua “expansão” durante o chamado período de bem-estar até o seu “enxugamento” nas décadas mais recentes; ou seu “controle” da produção no caso chinês – acompanharam os ciclos históricos do capital, tendo como intuito seu resguardo e perpetuação. Qualquer vantagem pontual que os trabalhadores tenham tirado dessas modificações foi mero acessório dos ajustes necessários ao modo de produção capitalista, e veio sempre acompanhada de um aumento da exploração em outra parte da cadeia produtiva mundial. Aqueles que defendem a disputa “interimperialista” como o gérmen de uma nova ordem multipolar ignoram completamente este fato.
Depositar nossas esperanças numa nação qualquer, carregue ela a insignia da foice e martelo ou as cores da nossa bandeira, é o mesmo que depositar nossas esperanças no capital. Não existe mudança possível, para o bem da humanidade, que baseie seu projeto no controle do capital, pois não existe compatibilidade entre a manutenção do modo de produção capitalista e a tarefa essencial do proletariado: se emancipar enquanto classe, trazendo, com isso, o fim da sociedade de classes. Enquanto existir capital existirá exploração, existirão impérios e existirão guerras; este é o único projeto possível da burguesia, e defendê-lo é a função do Estado.
Para os trabalhadores realizarem seu projeto emancipatório, é necessário que constituam um poder independente, em oposição às aspirações do capital. Os revolucionários do século XX estavam cientes dessa necessidade. Defender a independência dos trabalhadores, armando-os com fuzis e teoria sempre foi uma questão fundamental. As milícias operárias e camponesas, montadas a despeito das forças “oficiais” do Estado, foram a única força capaz de combater o avanço da reação na Europa, e, em casos como a Rússia e a China de outrora, garantir a defesa da revolução.
Essa verdade se prova absolutamente válida e necessária nos dias de hoje. Sem independência de classe, sem as forças do proletariado armadas e preparadas ideologicamente contra o capital, a humanidade não tem futuro.
A luta de classes, contudo, bem ou mal, está sujeita a ascensos e descensos que nem sempre acompanham a vontade justa dos revolucionários. A classe operária de hoje ainda se recupera de uma derrota histórica que lhe impôs quase um século de obscurantismo; vide o stalinismo e a multiplicação de tantas outras correntes adeptas da conciliação de classes e da defesa do Estado. Desarmado ideologicamente e militarmente, o proletariado ainda não consegue sustentar sua independência, batendo de frente contra a burguesia e avançando sob chumbo grosso o seu projeto emancipador. Mas isso não significa que não há nada a ser feito.
A começar por defender o que estamos discutindo aqui junto aos trabalhadores, expurgando de sua consciência e de seus atos toda e qualquer ilusão com a via parlamentarista. Este é, hoje, um passo indispensável para construir a oposição ao projeto apocalíptico do capital.
Tal como o capital é incapaz de resolver sua crise, os Estados nacionais são incapazes de gerenciá-la. Propagandear junto aos trabalhadores que a luta se faz no parlamento é uma falsidade cruel, impensável de ser sustentada por aqueles que tomam partido pela humanidade. Devemos, enquanto revolucionários, expor com a maior clareza possível para toda a classe trabalhadora o que ela já suspeita, mas ainda não consegue organizar num projeto consciente: o fato de que por dentro da ordem atual das coisas não há saída alguma.
Desejar que os trabalhadores renovem suas esperanças no Estado é o mesmo que desejar que a luta de classes volte uma casa no tabuleiro. O Estado, insistimos, nada mais é que o instrumento da burguesia na gestão do capital. São as necessidades do capital quem determinam a face do Estado – se mais “democrática”, se mais “autoritária” – e não um parlamentar ou uma política específica. Investir forças na “defesa da democracia” ao invés da independência de classe dos trabalhadores é ser conivente com tudo o que a perpetuação da ordem burguesa implica nessa quadra histórica: a nossa própria extinção.
A posição em prol do trabalho e da independência de classe precisa ser resgatada; os trabalhadores precisam ter a certeza de que são eles quem fazem o mundo – não a burguesia, não o Estado, não o capital. Precisam ter a confiança de que o seu poder é o único poder capaz de criar as condições necessárias para uma vida digna na Terra.
Os impérios não tardam a partir para a agressão aberta. Precisamos reconstruir junto aos trabalhadores de todo o mundo a única alternativa possível: a revolução proletária internacional.
1 A ameaça da produção chinesa dominar o mercado da Europa já tem tirado o sono das burguesias locais, e é possível encontrar artigos sobre isso em todo grande jornal europeu: https://www.theguardian.com/business/2026/jan/31/china-global-trade-us-economy
2 O livro Setlers: The Mythology of the White Proletariat, de J. Sakai, é uma rica contribuição para a compreensão das classes nos Estados Unidos. Nele, Sakai, ex-operário, constata que a industrialização dos EUA seria impossível sem a mão de obra imigrante. Além disso, o autor observa que os imigrantes e indígenas sempre assumiram as posições mais baixas e numerosas na divisão do trabalho nas fábricas, enquanto os trabalhadores nascidos nos EUA começaram a integrar desde cedo a diminuta aristocracia operária.
3 A ordem executiva está disponível no site oficial da Casa Branca pelo link: https://www.whitehouse.gov/presidential-actions/2025/09/designating-antifa-as-a-domestic-terrorist-organization/
4 São muitos os estudos que analisam o aumento da repressão aos movimentos contra a mudança climática. Pesquisadores, agências de notícias e até alguns think tanks liberais já soaram o alarme, mostrando que o “mundo livre”, principalmente a Europa e os EUA, estão endurecendo as leis contra protestos e a pena dos ativistas: https://bpb-eu-w2.wpmucdn.com/blogs.bristol.ac.uk/dist/f/1182/files/2024/12/Criminalisation-and-Repression-of-Climate-and-Environmental-Protests.pdf
5 Em maio do ano passado, o serviço de inteligência inglês também acionou a polícia de Londres para interromper um encontro de apenas seis jovens que debatiam a situação em Gaza dentro de um a casa Quaker, levando as garotas para a delegacia e colocando-as sob investigação: https://www.theguardian.com/world/2025/may/10/police-raid-london-quaker-meeting-house-very-worrying?CMP=share_btn_url
