
São Paulo me assusta! De todas as cidades que já visitei, Sampa é a que mais me impõe medo. De onde vem essa sensação de apreensão, não sei. Conheço algumas outras grandes metrópoles, mas a paulistana é, entre todas, aquela que menos me permite relaxar. Como cancionou Itamar Assumpção, quem vem pra cá jamais se esquece, mas tem que se acostumar a viver à beira do stress.
No início de agosto precisei ir à maior cidade das Américas para participar de uma feira de livros. No trajeto do aeroporto até o local onde ficaria hospedado, um completo desespero. Os ferroviários estavam em greve. Mas grave mesmo foi ver a quantidade de pessoas vivendo na rua. Mendigos por toda parte.
Mesmo diante da oscilação de temperatura, que em agosto é constante, essas pessoas portavam roupas completamente inadequadas: algumas nem vestes tinham.
Em uma ocasião, próxima ao shopping Frei Caneca, deparei-me com uma mulher negra, de aproximadamente 40 anos, completamente despida. Nua, com a genitália apoiada em um cesto de lixo, ela vasculhava um balde de dejetos. Sabe-se lá o que procurava: roupas, comida… quem responde?
Estive na cidade durante cinco dias. No percurso da hospedagem até o espaço onde se realizava a feira, além de caminhar cerca de mil e quinhentos metros, era preciso fazer duas baldeações nas estações de metrô. No trajeto, a cena se repetia. Em alguns pontos mais, em outros muito mais, a aglomeração de mendigos saltava aos olhos de qualquer desatento transeunte.
Mesmo o mais lesado dos espectadores, como este escritor, não conseguia desvencilhar os sentidos do mais absurdo, real, trágico e imundo teatro dos horrores.
Porém, algo pior ainda me chamou mais drasticamente a atenção. Foi realmente chocante observar a naturalidade com que pessoas viam outras dormindo em calçadas, sob viadutos ou em outros lugares absolutamente inapropriados para viver.O macabro espetáculo, lamentavelmente, está normalizado.
O máximo que se via era uma ou outra pessoa olhar piedosamente, cuspir ao chão como se dissesse em pensamento: “é assim mesmo… foi escolha deles… seja o que Deus quiser…”
Durante quase uma semana que estive na cidade, convivi com esse nefasto cenário como se ele fosse parte comum do cotidiano das pessoas: tanto daqueles que sobreviviam sob as sobras quanto daqueles que contemplavam o horror como se ele fosse parte natural da condição humana.
Chegou a hora de falar da feira. Fui criado em uma casa que não tinham livros. O máximo que meus olhos alcançavam, escritos sobre folhas de papel, eram revistas. Minha mãe trabalhava na antiga Editora Bloch, que publicava a revista Manchete. Até ser engolida pela crise capitalista que sepultou parte da impressão gráfica ao redor do mundo, surfou como um dos mais importantes grupos da imprensa brasileira.
Eu me fascinava pelas fotos, figuras e acabava tateando (tentando ler), naturalmente, as letras garrafais. Livro mesmo, só fui ter acesso na escola básica. Digo que, de imediato, não gostei muito. Os paradidáticos eram chatos e distantes de mim. Apenas no final da adolescência, motivado pelos primeiros namoros, foi que conheci Carlos Drummond de Andrade. Ao ler A estranha (e eficiente) linguagem dos namorados, dei um grito de interjeição.
O poeta maior foi a porta para Whitmams, Brechts, Clarices, Cecílias, Firminas, Machados, Pessoas, muitas Pessoas… Para minha parca sorte, a lista nunca terminou. Não esquecerei jamais o dia que li Goethe pela primeira vez. Apaixonei-me débil e perdidamente pelos livros. Tornei-me leitor e escritor.
Voltemos à feira. Imaginemos agora uma pessoa apaixonada por livros que é convidada a participar de um evento literário onde seus livros serão expostos. Fiz carreira para São Paulo.
Sobre a feira é preciso dizer que foi composta como um movimento que se pretendia alternativo e politicamente independente. Sua proposta: dar vazão às publicações que não encontram amparo nas editoras comerciais. Os cinco dias do evento seriam compostos por palestras, mesas redondas, conferências, debates e intervenções de natureza progressista. A organização, orgulhosamente, posiciona-se no campo que a ciência política chama de esquerda progressista.
As bancadas que expunham os livros, estavam rodeadas por pessoas bonitas, propositivas e exalando certa aura de empoderamento. Há de se considerar que a maioria do público talvez estive mais interessado nas defesas das conferências e menos em livros. De todo modo, houve circulação de conhecimento.
Nas conferências: a defesa do Estado da Palestina, o identitarismo, a força feminina, pensamento decolonial, comunidade GLBTQIA+, entre outros assuntos correlatos. Embora que em menor quantidade e tom, não pode ser dito que expressões como luta de classes, marxismo e Marx não foram proferidas.
Não obstante o contingente progressista que lotava o espaço onde ocorria o evento, em momento algum, em nenhuma das intervenções que compunha o palanque da feira, ouviu-se qualquer comentário, por menos crítico que fosse, ao montante assustador de mendigos ou à greve dos ferroviários.
Essas bandeiras podem ser da conhecida direita?
Por que, então, os palestrantes do evento, cerca de meia centena, não se incomodavam com a greve e com a mendicância?
O evento era, antes de mais nada, um imenso palanque onde aqueles considerados progressistas podiam desfilar suas bandeiras político-eleitoreiras. Posso depor que foram muitas. Diversos matizes, envolvidos com o próximo pleito eleitoreiro e que se autoproclamam combater a direita, bradavam em auto e bom som: temos que garantir, via voto, um Estado democrático para tod@s.
George Lukács, ao se referir ao realismo mal-entendido, declara que seus escritos devem chocar tanto os partidários de direita quanto os politicamente corretos. Eu declaro, com base no húngaro, que estes rudes escritos, possivelmente, angariarão o desprestígio de ambos os polos.
A Sampa assustadora, que se acostumou à miséria e nem esta aí para um determinado contingente de trabalhadores que luta contra mais uma privatização promovida pelo comandante de direita, parecia ter selado, como refletiu o marxista de Budapeste, um acordo entre seus mais agudos adversários políticos.
A quantidade de gente morando nas ruas de São Paulo e a completa invisibilidade por parte dos considerados progressistas, faz-me pensar que há, sim, um acordo; haja vista que a direita não vai enfrentar esse tipo de desafio. Os considerados progressistas, em sua vontade de poder, pretendem ganhar o Estado. Mas, os seus problemas significativos não dever emergir à superfície, ficando atado a naturalização subsumida na alienação capitalista.
Lukács, em outro ponto de sua reflexão, comenta que a experiência capitalista desperta, principalmente nos intelectuais, “sentimentos de angústia, de repulsa, de perdição, de desconfiança em relação a si próprios e aos outros, de desprezo e de vergonha, de desespero, etc.” O autor, se refere, como adiantado, ao problema do realismo; contudo com mais de cinco dezenas de intelectuais portando o palanque, esses problemas deveriam ser tergiversados? “[…] devemos ficar inertes perante tudo isso?”
Chamou-me especial atenção a primeira palestra que lá assisti: seu proferidor, como está escrito na programação do evento “é antropólogo, professor, palestrante e especialista em comportamento, consumo e inovação. Doutor em antropologia, teve passagens pela University of British Columbia (Canadá), Berlin School of Creative Leadership (Alemanha), ESPM e London College of Fashion.” O currículo acadêmico do palestrante é completado com sua função profissional, vejamos: “É sócio fundador do Grupo Consumoteca, consultor estratégico de grandes empresas da América Latina, colunista da Rádio CBN e do Jornal O Globo e host do podcast ‘É Tudo Culpa da Cultura’. Autor dos livros ‘De Tédio, Ninguém Morre” e do best seller ‘Coisa de Rico‘”. Entre outras publicações do gênero (negritos por conta e risco do presente articulista).
Guido Oldrini, ao se referir aos intelectuais, que em sua maioria se formam com dinheiro público (como no exemplo epigrafado), diz que, em vez de se enfileirarem nas bandeiras populares, perdem a vontade de lutar “a favor das forças em luta pelo progresso”. O italiano aclara que Marx já nos lembrava, quando o fenômeno apresentava seus traços germinais: a “apologética e a decadência andam aos pares na sociedade burguesa”.
Essas reflexões ajudam a esclarecer o seguinte: toda vez que se torna impossível negar a decadência ideológica dessa massa de intelectuais que se considera progressista, seus efeitos são reinterpretados com novas alcunhas. As necessidades decadentes da vez, respondem pelo nome de identitarismo, decolonialidades, lugar de fala e mais um cabedal infindável de novos termos que não cabem nessa folha.
Não há como esconder que essas pretensões inovadoras estão alinhadas, ineludivelmente, ao daltonismo do pensamento pós-moderno. Ou como comenta Lukács na Ontologia, são expressões que nada afirmam, a não ser a determinação mais geral da ideologia. “Isto aparentemente, pois excessivamente evidente-que-nada-diz[em].”
Os ocupantes de espaços privilegiados, como o da feira de livros alternativa de Sampa, promovem-se sobre o disfarce de questionar a sociedade em que vivem. Em verdade, aqui reside um modelo parasitário para que seus interlocutores transformem os instrumentos discursivos que adquiriram, em geral com dinheiro público, em apologética decadente do presente.
Com base na coincidência desse planejado desconhecimento, não causa nenhum espanto a ausência da relação entre o entendimento da realidade e a volúpia por mudá-la. A miséria de fato, aquela que salta aos olhos, naturalmente, é contemplada com soslaio por aqueles que possuem o mito progressista do lugar de fala.
Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/Índio, mulato, preto, branco/Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/Miséria é miséria em qualquer canto/Filhos, amigos, amantes, parentes/Riquezas são diferentes/Ninguém sabe falar esperanto/Miséria é miséria em qualquer canto/Todos sabem usar os dentes
Riquezas são diferentes.
Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes/A morte não causa mais espanto/Miséria é miséria em qualquer canto/Riquezas são diferentes
Miséria é miséria em qualquer canto/Fracos, doentes, aflitos, carentes/Riquezas são diferentes/O Sol não causa mais espanto/Miséria é miséria em qualquer canto/Cores, raças, castas, crenças/Riquezas são diferenças.
A morte não causa mais espanto/O Sol não causa mais espanto/A morte não causa mais espanto/O Sol não causa mais espanto/Miséria é miséria em qualquer canto
Riquezas são diferente/Cores, raças, castas, crenças/Riquezas são diferenças/Índio, mulato, preto, branco/Filhos, amigos, amantes, parentes/Fracos, doentes, aflitos, carentes/Cores, raças, castas, crenças/Em qualquer canto miséria/Riquezas são miséria/Em qualquer canto miséria/Riquezas são miséria, é/Riquezas são miséria.
(Arnaldo Antunes, Paulo Miklos, Sergio Britto)