
Deu na Folha de São Paulo de 20 dezembro de 2025, pelas mãos de Txai Sarui: se, às vezes, o “meio é a mensagem”, outras vezes a autoria agrega conteúdo à mensagem. Txai Sarui é militante/dirigente da ONG “Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé” e colunista da Folha de São Paulo. Faz parte daquele universo de militantes profissionais que prega a via democrática, em geral petista, para alcançar a justiça social. Após lutar pela rejeição do Marco Temporal, Txai Sarui se viu constrangida a protestar contra a rejeição do mesmo Marco Temporal pelo STF: a emenda terminou sendo muito pior do que o soneto.
Lembremos: o Marco Temporal restringia o reconhecimento dos territórios indígenas apenas e tão somente àqueles assim reconhecidos pela Constituição, excluindo os quase 900 outros territórios identificados após 1988. O Marco Temporal era a proposta do agrobusiness nos anos do governo Bolsonaro e a contra ele almejava garantir territórios para todas as comunidades indígenas, inclusive àquelas não reconhecidas pela Constituição de 1988.
Pois bem, a decisão do STF, com a complacência do governo Lula3, consegue ser pior do que a proposta bolsonaristas do Marco Temporal. Txai Sarui: “A lei prevê a ‘desapropriação de interesse social’” que submete a “terra” à “conveniência do Estado e, como sabido, do agronegócio. O ‘interesse social’ torna-se, na prática, interesse do latifúndio, da mineração, da especulação.” Agora, “o latifúndio, a mineração e a especulação”, pelas mãos do Estado, realocarão as comunidades indígenas onde lhes for mais lucrativo. É a “institucionalização do desterro”, nas precisas palavras de Txai Sarui.
Lembremos a sorte dos indígenas estadunidenses “realocados”: sobraram alguns poucos indivíduos indígenas convertidos em burgueses e nações indígenas inteiras reduzidas à indigência. Casinos biliardários e reservas miseráveis. Entre nós, não será diferente. Ao invés de casinos, o extrativismo vegetal (madeira, antes de tudo), o agrobusiness e a exploração mineral. A destruição da natureza, a todo vapor. O “desterro” terá o efeito real de impor, ainda mais duramente, os ditames do capital sobre civilizações indígenas já esgarçadas e em dissolução. O aprofundamento da ruptura cultural é apenas o subproduto desta submissão decisiva.
“O artigo mais grotesco, continua Txai Sarui, criminaliza as retomadas indígenas (…) É a legalização da passividade diante da invasão e uma licença à repressão: comunidades que resistirem serão tratadas como criminosas, com respaldo policial.” As milícias no campo e a onipresente violência contra os camponeses e indígenas têm agora a “licença” de uma resolução do STF. Está correta Txai Sarui ao concluir que a rejeição do Marco Temporal pelo STF é uma “engenharia jurídica para o esvaziamento territorial”: a limpeza da terra da sujeira que são os camponeses e indígenas que lá se encontram há dezenas, por vezes milhares de anos.
“A rejeição do marco temporal, conclui ela, é só um gesto simbólico para acalmar consciências enquanto a máquina real de destruição é montada” ao se “manter artigos da lei” que deram “à violência um carimbo de legalidade” e taxaram como criminosa a resistência popular.
Pela a proposta bolsonaristas do Marco Temporal, apenas alguns territórios indígenas contariam com a proteção da Constituição. Hoje, essa proteção é negada a todos! Negação que autoriza o Estado a “desterrar” os indígenas segundo os interesses das mineradoras, da especulação, do latifúndio e das madeireiras. Negação que autoriza o Estado a reprimir com todas as suas forças os indígenas que vierem a reagir: Lula3 consegue ser mais danoso aos indígenas que Bolsonaro1!
A razão desse fato? A determinação de classe! Bolsonaro e Lula são distintas faces das mesmas classes dominantes. O que os difere vai pouco além das parcelas do estamento político-burocrático cujos interesses encarnam.
Isto quanto aos povos indígenas.
Tem sido diferente para o restante dos cidadãos deste país?
Os petistas ganharam a eleição (com o decisivo apoio da Justiça Eleitoral, lembremos) se apresentando como promotores da justiça social. Pois bem, seus “programas de distribuição de renda” (Bolsa Família, etc.) diminuíram a concentração de renda? Reverteram a tendência a concentrar os miseráveis nas camadas inferiores e superiores da miséria, eliminando seu extrato médio?
As estatísticas que mostram uma queda recorde no desemprego podem ser tomadas a sério? A solicitação do salário desemprego não deixa de aumentar! Os trabalhadores ainda empregados nunca foram tão intensamente explorados e jamais obrigados a jornadas de trabalho tão exaustivas e prolongadas. Os que estão informalizados, sejam os precarizados, sejam os “empreendedores”, lutam com todas as energias para não naufragarem na maré montante da miséria. Adoecem com crescente frequência. Casos de burn-out e depressão aumentam geometricamente. Desesperados, buscam até mesmo “energias” nas inúmeras seitas que tornam lucrativa a angústia generalizada.
Nunca os negros e outros “não brancos” foram tão perseguidos, aprisionados, massacrados e torturados: este o efeito real das cotas raciais, do Ministério dos Direitos Humanos e do Ministério da Igualdade Racial! Em 2022, 68,2% dos da população carcerária era de pessoas negras, em 2005, era apenas 58,4%. Por outro lado, a participação de brancos caiu de 39,8% a 30,4% no mesmo período. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública em 2023. Da lá para cá, é possível que esses números tenham piorado. Comissões para avaliar, segundo critérios necessariamente subjetivos, a raça dos indivíduos se multiplicam pelos órgãos do Estado: o racismo diminuiu – ou tão somente se institucionalizou?
As políticas de proteção às mulheres apenas promovem a ilusão de que se faz algo contra o número ascendente de assassinatos e maltratos femininos. Nunca houve tanto sofrimento entre as mulheres, jamais assistimos a tantos feminicídio (em 2015 foram 449 oficialmente reconhecidos, em 2024, 1.492). Tal como as políticas públicas, também o Ministério das Mulheres, as cotas e a “proteção” às mulheres não passam de “gesto[s] simbólico[s] para acalmar consciências enquanto “montam” “a máquina real de destruição”.
Não custa lembrar o legado petista: nunca a saúde foi tão privatizada, nunca a educação foi tão entregue aos fundamentalistas e ao capital privado, nunca os transportes, inclusive as ferrovias, rodovias e aeroportos foram tão entregues à sanha do capital, nunca a geração de energia foi tão danosa à população e lucrativa para os grandes — e assim por diante.
Defesa da ecologia? Foi dos petistas o crime de lesa-humanidade da construção da Usina Hidroelétrica de Belo Monte, o marco mais importante na destruição da Região Norte desde a Transamazônica, da Ditadura. Marco agora, complementado pela exploração de petróleo na Foz do Amazonas. Quando o país foi coberto pela fumaça das queimadas, senão sob Lula3? As políticas ambientais tão somente disciplinam, ordenam, a destruição do planeta – não a combatem. Ironia da história: sob um Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima!
Segurança pública: o Estado é um assassino, sabemos disto há pelo menos um século e meio. Já que exigir que o Estado deixasse de matar seria “demais”, fica a questão: os assassinatos pelo Estado foram colocados sob controle? Pelo contrário: a máquina repressora do Estado foi desenvolvida e aperfeiçoada. Sob Dilma, a resposta às manifestações de 2013 foi uma legislação repressora mais dura que a Lei de Segurança Nacional da Ditadura. Os sucessivos governos petistas nada fizeram para aboli-la! Pelo contrário: a desenvolveram. O massacre do Rio de Janeiro, em 2025, foi o mais letal em nossa história! O que ocorreu sob o governo petista da Bahia? Nunca a população da periferia (e uma expressiva maioria de “não brancos”) foi tão massacrada, quer em números absolutos, quer na proporção habitantes/assassinados.
A ironia é que tal intensificação da repressão sobre os trabalhadores e desempregados é apenas o complemento dialético do crescimento das milícias e do crime organizado, PCC à frente. Tal como a Operação Carbono e, agora, o caso Master revelam, sistema financeiro e rendimentos advindos da corrupção, do comércio ilegal de drogas e de armas são como unha e carne. Distintos, mas inseparáveis. Suas ramificações se estendem pelos Executivos Estaduais e Municipais, pelos Legislativos e, ainda pelo Supremo Tribunal Federal. Sob Bolsonaro, o elo com o Executivo já era conhecido. Falta vir a público o elo petista. O capital é o capital. Sua origem, se legal ou criminosa, é de importância secundária!
Que é vã e descabida a esperança de que o petismo possa ser uma via a um país mais justo, já sabíamos desde a década de 1980. O petismo não pode ser mais do que uma sequência de “gestos simbólicos” que “montam” a “máquina real de destruição”. Contra este fato, os petistas recorrem, esperançosos, às mágicas do marketing eleitoral para vender a miragem de que são a única redenção possível à esta nação tão sofrida.
As mágicas, sabemos, têm prazo de validade. Precisam se tornar cada vez mais espetaculares: a criação dos inúmeros ministérios “das minorias”, por exemplo. A efetividade das mágicas, contudo, vai diminuindo no tempo no mesmo ritmo em que os “atos simbólicos” têm de se tornar mais espetaculares. A realidade, ainda que por vezes demore, termina por se impor às consciências. Lula criou o Ministério dos Povos Indígenas e elevou uma indígena ao status de ministra, Sonia Guajajara: qual a serventia, além de iludir os indígenas de que seriam salvos pelo seu governo – e não desterrados? De iludir seu eleitorado de que, com a criação dos muitos Ministérios “das minorias”, as iniquidades sociais seriam enfrentadas? Tais Ministérios são algo além de “gestos simbólicos” que auxiliam na manutenção da “máquina real de destruição”? Os negros, os quilombolas, os LGBTs, as mulheres, as crianças, os estudantes, os trabalhadores… e tantos outros, que o digam!
As cotas! Não é melhor ter mais negros, mulheres, indígenas, etc. nas universidades, que o contrário?
Depende! Serão eles tratados como seres humanos, como todos os outros? Ou serão tratados como estudantes inferiores aos “brancos”? Critérios rebaixados para os cotistas (negros, indígenas, quilombolas, etc.) reafirmam o racismo. Os cotistas seriam inferiores, incapazes do mesmo desempenho dos não-cotistas! Por isso deles deve ser exigido um desempenho inferior! Uma vez no mercado de trabalho: entre um médico cotista, que foi menos exigido na Universidade, e um outro, não cotista, que foi mais rigorosamente avaliado: qual você vai preferir? Entregaria a saúde de seu filho a um cotista ou a um não cotista?
Depende! As políticas de cotas são acompanhadas, ano a ano, pelo aumento de vagas nas universidades públicas até contemplarem todos os jovens, independente de raças, que queiram estudar? Ou fazem parte de políticas educacionais elitistas que negam à maior parte da juventude o direito à educação universitária?
Bem pesadas as coisas, as cotas não passam de “atos simbólicos” que “acalma[m] as consciências” e mantêm a enorme maioria da juventude fora das universidades. Já temos mais de uma década de políticas afirmativas: a vida não comprova este fato para além de qualquer dúvida razoável?
As cotas, tal como a essência do petismo, não vão além de “gesto[s] simbólico[s]”: mantêm intocada a “máquina real de destruição”.
De volta aos indígenas: o fato de o petismo não ir além da promoção de “símbolo[s]”, de miragens e ilusões, é o que o faz comparsa da “máquina real de destruição”. Bolsonaro era obrigado a reconhecer o direito à propriedade da terra de algumas, poucas, nações indígenas. O petismo consegue negar este direito a todas as nações instituindo o “desterro” universal.
O fenômeno da “esquerda do capital” mimetizar a direita radical não atinge apenas o petismo. Antes, é reflexo do momento histórico em que vivemos. A crise estrutural em que estamos metidos não deixa meio-termo, não aceita meias medidas: o capital necessita submeter a tudo e a todos à sua sanha assassina. Nossa sociedade nada mais pode oferecer senão misérias, sofrimentos e uma vida sem razão de ser. Os humanos não mais a suportam. Suicídios, matanças, genocídios, burn-out e centenas de milhares em depressão: não mais se consegue viver deste modo.
As cidades vão se convertendo em campos de batalha. Os ricos se entrincheirando em condomínios cercados pelos trabalhadores nas favelas. As famílias vão se tornando campos de batalha em microescala: as mulheres são maltratadas e assassinadas em tendência ascendente; os filhos “não respeitam os pais” e sofrem as violências do patriarcalismo decadente. A maior parte dos abusos sexuais ocorre em família! As drogas e o desemprego corroem o que ainda havia dos laços familiares tradicionais.
O reformismo nada pode nesta situação. Ou melhor, pode algo: “gestos simbólicos” que montam e mantêm em operação a “máquina real de destruição”. Exagero? Txai Sarui não nos deixa mentir: com um Ministério dos Povos Indígenas, uma indígena minsitra e com o apoio do MST, os indígenas são mais duramente atacados sob Lula3 que sob Bolsonaro1! Este almejava o Marco Temporal, Lula instituiu o “desterro universal” – furtivamente, na calada da noite das festas de final do ano. À sorrelfa, como diria Ernesto Geisel, o ditador!
A “via jurídica”, pela qual Txai Sarui e sua ONG tanto lutaram, se revelou uma ilusão. A sua crença de que o Estado poderia colocar freios no agrobusiness, revelou-se inteiramente falsa: nas palavras de Sarui, a “conveniência” “do Estado” é a mesma “conveniência” “do latifúndio, da mineração, da especulação”. A vida mostrou que canalizar os “campos de batalha” da vida real à “via jurídica” garante o domínio “do latifúndio, da mineração, da especulação” sobre a humanidade, indígenas incluso.
A avaliação de Txai Sarui é justíssima: “O cenário desenhado pelo STF e o Congresso agrava conflitos: ao fechar a via jurídica, empurra as comunidades para o confronto direto. A lei, em vez de pacificar, alimenta tensões, transforma os 857 territórios indígenas com pendências em campos de batalha.” “Aux armes, citoyens!” Às armas, cidadãos! Se o Estado e o agro coincidem, enfrentemos o Estado! A pior das hipóteses, uma brutal repressão, é ainda melhor do que se submeter à lei, pois não passaria do consentimento à degola do que restou de toda uma civilização. Uma civilização que resiste, sobrevive à derrota. Uma civilização que se permite aniquilar, não deixa sequer rastros na areia.
Txai Sarui, relembremos, é coordenadora de uma ONG, a “Associação de Defesa Etnoambiental – Kanindé”. Confrontar o Estado, para a mentalidade onguista, é “demais”. Há, pois, que se recuar da constatação da “coincidência” entre o Estado e o agrobusiness. Pois, acima de tudo, é imperioso manter “a esperança”, isto é, a ilusão, de que seria possível, apesar de todas as evidências em contrário, trazer o Estado para o lado da justiça. O equívoco petista não seria o de tomar o partido “do latifúndio, da mineração e da especulação”, mas o de abandonar os indígenas – como se fosse possível, ao mesmo tempo, ser representante do agrobusiness e promotor do “direito originário” dos indígenas aos seus territórios.
Ao invés de travar as “batalhas” da vida real, Txai Sarui voltará a “pressionar” o governo para reavivar a “via jurídica”. Fará de tudo para desmobilizar os “campos de batalha”, em nome da paz conveniente ao latifúndio, à mineração e à especulação. Mais gestos simbólicos virão, com o apoio de ONGs como a de Txai Sarui e do Ministério dos Povos Indígenas: a “máquina real de destruição” continuará sua marcha triunfal!
Pobre Txai Sarui! Ao invés de “Aux armes, citoyens!”, não pode propor senão “Aos tribunais, ao Congresso, cidadãos!” O que significa trocar o campo de batalha real, aquele nos territórios indígenas onde os massacres ocorrem, pelas salas acarpetadas dos tribunais: a vitória do agrobusiness e da mineração está assegurada. Se loucura é repetir infindavelmente uma ação esperando um resultado distinto, nada corresponde melhor a essa definição do que buscar a salvação dos indígenas recorrendo aos mesmos tribunais e ao mesmo Estado que o capital usa para desterrá-los.
Não passa de conluio com os opressores defender que será pelo Estado e pelo petismo que promoveremos a justiça social. O que a realidade está mostrando a Txai Sarui, e a todos nós, é que se não lutarmos contra a sociedade burguesa e tudo o que ela alimentou para nos oprimir (por exemplo, o Estado, a propriedade privada e a família patriarcal, monogâmica), faremos apenas “gestos simbólicos” que terminarão por fortalecer a “máquina real de destruição”.
Tal como em Gaza, ou na invasão da Venezuela, também para os povos indígenas não resta alternativa: destruir, ou se submeter, ao capital, esta “máquina real de destruição”, este “moedor satânico de carne humana” (Karl Polanyi). Pode ser submissão ao modo bolsonaristas, ou ao modo petista: a submissão não se altera.
Acorda, Txai Sarui!!